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Um casal, duas bicicletas e 10 meses pela América Central

Acreditamos que tomar uma decisão que implica deixar o trabalho, cidade, família e amigos em busca de algo incerto, nunca feito antes, por lugares desconhecidos e expostos a muitos riscos não é uma tarefa fácil. Para gente, não foi. Mas tínhamos a vontade de viajar, além da certeza de que não seria por apenas uns dias ou um mês, e a partir daí começamos a economizar.

Dia “D” - Partiu América Central (David/Panamá)

Vimos que é importante um planejamento, mas nem tanto. A fase da pré-viagem foi de pesquisa em blogs de cicloviajantes e procurando contatos que houvessem viajado por esses lados ou ainda, conhecidos morando na América Central.  Mas o principal foi a pura vontade de sair, de conhecer e se conhecer, de sentir o vento na cara, de andar pela estrada sem rumo certo, tendo a liberdade como norte e nossas pernas como motor.

Verde e mais verde! (Panamá)

Fomos apenas com nossas economias e conseguimos ficar 10 meses sem trabalhar, com uma media diária de 25 dólares para os dois. Mas conhecemos muitos viajantes que há anos andam pela estrada e vão trabalhando nos mais diversos afazeres: vendendo comida, pulseiras, tocando música, fazendo massagens, entregando poemas nos ônibus e praças, trabalhando em restaurantes. Dinheiro não é um impedimento para viajar, como muitos acham, e quanto mais despojada é a viagem, mais perto da realidade das pessoas se está.


Acampamento nos lagos de Colon (México)

Nosso destino escolhido foi a América Central. Voamos de Montevidéu até o Panamá. Aí começamos a pedalar até o México e depois até Cuba.  Escolhemos estes lugares por não serem tão conhecidos, para aprender e entender como vivem, pensam e sentem estes latino-americanos como nós. Por isso o projeto se chama “Acercandomundos, América Central a 20 km/h”. Ou seja, aproximando mundos na velocidade da bicicleta.

Mapa da viagem
Passando o túnel solitário (Chiapas/México)

A escolha da bicicleta como nosso meio de transporte foi principalmente porque ela já fazia parte do nosso dia-a-dia em Montevidéu. Também pelo desafio físico e psicológico que implica, pela sensação de liberdade que nos possibilita, pelo contato pessoal e direto com as pessoas do caminho e porque “é o único meio de transporte capaz de ir à velocidade dos pensamentos”.

Nós e as tralhas...

Algo que muito preocupava os familiares e amigos era a nossa segurança, pois de bicicleta estamos muito mais expostos a perigos, seja de assaltos quanto de acidentes. Tanto que em algumas circunstâncias tivemos que pegar uma carona porque a estrada não tinha acostamento e os caminhões passavam tirando tinta de nós.

Em determinados lugares de El Salvador e Honduras, tivemos que lidar com algumas preocupações e entender certos “sinais”. Por exemplo, em certas zonas, quando a noite chegava e não se via mais ninguém pelas ruas, entendíamos que por algum motivo nós também não deveríamos estar ali. Descartamos desde o começo da viagem pedalar à noite, apesar de ter acontecido algumas vezes. Nada que interfira nas imensas alegrias, surpresas e gratidões que tivemos nesses meses vividos na bicicleta.

Enfrentando a maior cidade da América Latina (Ciudad de Mexico)

Entre tantas famílias que nos acolheram em diversos momentos da viagem, como Natal e aniversários, queremos mencionar especialmente a família dos Bombeiros, que estiveram sempre nos apoiando nessa aventura. Muitos deles faziam muito mais do que nos receber, foram verdadeiros companheiros que realizam seus trabalhos com muita dedicação e  fazem da hospitalidade uma prática cotidiana. Principalmente os Bombeiros de Ahuachapán (El Salvador), com quem compartilhamos a noite do Ano Novo. Fizeram questão que ficássemos um dia a mais e que participássemos da ceia com eles!

01 de Janeiro - Com os Bombeiros de Ahuachapan (El Salvador)

Por todas as pessoas que conhecemos que com simples gestos nos ajudaram, todos os amigos que encontramos que nos receberam de braços abertos em suas casas e nos hospedaram em suas famílias, que nos brindaram seu tempo para nos acompanhar, sua disponibilidade de escuta atenta, e a sincera generosidade de compartilhar suas vidas; podemos dizer que “nunca trouxemos tanto, voltando com tão pouco”. 

Sendo prestigiada pelas crianças na ilha de Ometepe (Nicarágua)

Foram dez meses muito intensos para nós e acreditamos que escolhemos o lugar certo para pedalar. Não foram muitos países, mas esses poucos tratamos de explorar com olhos atentos às diversidades e desigualdades, ouvidos e mentes abertas a outras verdades.  No começo sempre aparecem dúvidas e medos, que foram desaparecendo no caminho percorrido, até que no final voltamos com a certeza de que foi uma viagem que mudou e enriqueceu nossas vidas.

O primeiro vulcão a gente nunca esquece! Vulcão Arenal (Fortuna/Costa Rica)

 


 

América de muitos povos e culturas

Apesar de terem territórios pequenos, cada país por onde passamos apresenta muita diversidade em línguas, costumes e formas de ser.

Mas podemos dizer que na Nicarágua notamos muita simplicidade nas pessoas, sempre prontas para nos ajudar. Na Costa Rica, percebemos certo ar de superioridade em respeito aos demais países centro-americanos, em especial com seus vizinhos nicaraguenses. Na Guatemala, nos surpreendeu a grande diversidade de etnias indígenas - mais de 23! ‑ cada uma com suas línguas próprias, seus huipiles (blusas coloridas adornadas com símbolos) que as identificam entre si e diferenciam das outras, suas tradições, e deuses. No sul do México, em Chiapas, há certa semelhança a Guatemala. Em Cuba, vivemos uma enorme diferença no relacionamento com as pessoas. Uma coisa era ser visto como “turistas”, quando tínhamos que estar um pouco na defensiva com quem chegava para conversar, porque às vezes nos queriam vender algo ou nos levar a algum lugar para que pagássemos bebidas. Mas tínhamos contatos de pessoas de lá e nos atenderam como poucas vezes nos ocorreu, com total disponibilidade de tempo e atenção. Gente de muito coração e grande solidariedade. 

Pedalando em Cuba

Diz-se que a América Central é a zona mais diversa no mundo, porque há muitas formas de vida e de ser nessas latitudes. As zonas do Caribe têm raízes afro na comida, na língua, nas religiões e na música, entre outras coisas.  Nas capitais de El salvador, Costa Rica e Panamá, principalmente, vimos muita influência da cultura capitalista dos Estados Unidos como nos inúmeros shoppings centers, na quantidade de cadeias de comida rápida, na supervalorização do consumo. Também é muito forte o “sonho americano”, onde muitas pessoas, inclusive crianças, vêem como seu único futuro possível chegar ao vizinho do norte, indo sem papéis em viagens de vários dias em condições muito perigosas. Em contraste, em Chiapas (México), os Zapatistas buscam sua autonomia baseadas no legado ancestral indígena e têm suas próprias escolas, medicinas, formas comunitárias de viver e o desejo de “um mundo onde caibam muitos mundos”. Tivemos a grata oportunidade de ficar uma semana em uma comunidade zapatista fazendo voluntariado.

Comunidade Zapatista (Oventic/México)

 

Só acontece de bicicleta

Alguns episódios saltam à memória, como quando estávamos pedalando na Nicarágua rumo à cidade de Esteli. Longas subidas nos tinham tirado o fôlego e a noite ia caindo. Paramos para descansar e um senhor de idade que estava por ali nos aconselhou não seguir e nos ofereceu sua casa para passar a noite. Aceitamos com gosto. Uma casa simples com piso de chão batido, sem luz e nem água encanada, mas com um grande pátio cheio de plantações que os alimentava diariamente. Arrumaram duas macas para gente dormir a noite, não antes de nos servirem tortillas, milho assado e um cafezinho. Ficamos encantados e gratos por essa recepção.

Luis Rojas e sua família, nossos anfitriões em El Cristalito (Nicarágua)

Outro momento marcante foi a dor de ver e sentir como tanto na Guatemala como no México a indústria do turismo exalta a grandiosidade da cultura Maia com imponentes resorts e finíssimos restaurantes que utilizam nomes maias, enquanto os descendentes desses povos vivem na pobreza, lutando por suas terras contra as grandes empresas e contra o próprio Estado. E são também muitas vezes menosprezados pelos mesmos turistas que vão a esses hotéis e comem nesses restaurantes.

Um caso interessante foi quando estávamos em Yucatan, México, procurando uns “cenotes” (“buracos com água”, em maia). Fomos perguntando o caminho a vários moradores maias e sempre as indicações eram tantos metros ao norte, outros ao sul. Não conseguíamos nos orientar direito com essas referências. Perguntamos a nossa amiga mexicana porque não nos diziam esquerda ou direita, que para nós seria mais fácil. Sua resposta foi que, na cosmovisão dos maias, o universo é o centro, assim suas referências são independentes de que lado esteja. Diferente de nós que consideramos o ser humano centro, e a partir disso nos situamos nas direções (“minha” esquerda, “minha” direita).

Depois de 4 horas... O topo do vulcão Concepción (Nicarágua)

 

Uma pitada de sorte

Por ter sido nossa primeira experiência em viagens longas de bicicleta, acredito que fomos muito bem e tivemos sorte também. Tivemos problemas com o bagageiro, que era frágil e quebrou várias vezes. Em compensação, eu (Mariana) não tive nenhum furou no pneu em quase 5.000 km rodados, acredito que graças a uma fita anti-furo.  Tivemos muitas subidas, principalmente na Guatemala. Mas de Huehuetango até La Mesilla, na fronteira com México, a sorte virou: são quase 80 km só de subida, que por sorte pegamos como descida!

Nem tudo é maravilha...

É difícil querer o que se desconhece. Esta viagem nos possibilitou conhecer alguns aspectos dos países e conviver com suas gentes, receber todo seu afeto e hospitalidade. Agora, quando escutamos notícias de lá, geralmente de tragédias e problemas, nos lembramos de nomes, de vivências, e podemos contrapor o que vivemos às notícias. O mundo é mais rico do que as tragédias pontuais que dominam os meios de comunicação. 

Na bicicleta, você não depende só de você, é necessária a ajuda dos outros. A vida independente e solitária não funciona na estrada. A solidariedade, o tempo de conversa e a atenção foram coisas que aprendemos a valorizar e tentamos incorporá-las ao nosso dia a dia.

Exaustos, chegando na Playa del Carmen (México)

Essa viagem também nos permitiu centrar-nos mais no presente, no aqui e agora, diminuir as ansiedades do futuro, estar menos pensando no passado. Na bicicleta você precisa estar sempre atento e focado no momento, com todos os sentidos alertas. São coisas simples, mas que ficaram mais claras. Essa experiência nos deu novos olhos e outros parâmetros. O mundo ficou maior dentro de nós.

 

Dicas que queríamos ter tido

Levamos coisas demais no princípio da viagem. Fizemos um “rancho” no supermercado antes de sairmos, levando sabonetes extras, um kit de farmácia grande, enxaguante bucal, um quilo de arroz... Peso desnecessário e que nos custou uma boa dor nas pernas nos primeiros dias.

Se for amante de livros, em Cuba, vá com uma mala extra para despachar! Os livros são baratíssimos, custam no máximo cinco reais. Como já estávamos no fim da viagem, levamos nós mesmos o peso extra.

Encontro com o Che (La Habana/Cuba)

O mais importante mesmo para começar a fazer uma viagem longa de bicicleta é a vontade de sair da zona de conforto, fazer uma viagem com outro intuito, com outros olhos e velocidade. Não é necessária uma super condição física como se pode pensar comumente. A gente não tinha e fomos adquirindo melhor forma com o passar dos quilômetros. Outra prova disso foi conhecer um senhor espanhol que depois de aposentar-se decidiu viajar em bicicleta com seus quase 70 anos, e há três anos anda em duas rodas pelo mundo.

Não importa o tempo, mas sim a viagem, as pessoas que se conhece, as experiências que se vive, e seguindo o slogan de um caracol (zona organizativa da comunidade) zapatista: "LENTO, PERO AVANZO!”

Lagos de Montebello (México)
Cascata de Chiflon (Chiapas/México)

 

Mariana Nunes e Luis Enrique Durante (Quique). Ela brasileira e ele uruguaio, são um casal “brasiguayo" de 29 e 33 anos respectivamente. Mariana é licenciada em hotelaria e viajante de alma, Quique é contador e estuda antropologia no Uruguai. Ambos são amantes da fotografia e das possibilidades oferecidas pela câmera fotográfica como uma ferramenta de expressão e de contato com as pessoas. Também usam seu blog para ir contando histórias ouvidas e experiências vividas.

 

Para conhecer mais:

http://acercandomundos.com/

https://www.facebook.com/acercandomundos